UNIVERSO JUDAICO · POR ILAN NIGRI

1492: o que determinava o decreto de expulsão?

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Expulsão e conversão · AMOSTRA ABERTA

1492: o que determinava o decreto de expulsão?

Uma família não precisava ter cometido uma infração para ser obrigada a partir. Bastava continuar sendo judia. O decreto assinado por Fernando de Aragão e Isabel de Castela em 31 de março de 1492 transformou o pertencimento religioso em motivo para expulsar uma população inteira.1

אIlan Nigri3 min de leitura · Fontes judaicas
Reprodução de manuscrito do decreto de expulsão, com escrita e assinaturas
Reprodução de uma cópia do decreto de expulsão de 1492. O documento registra a decisão dos governantes; as consequências para as famílias exigem também outros testemunhos. Imagem em domínio público, disponibilizada no Wikimedia Commons. A ficha digital não fornece aqui uma proveniência arquivística completa.

Uma ordem com prazo

O texto determinava que os judeus deixassem os territórios atingidos até o final de julho. Incluía pessoas de todas as idades e proibia seu retorno. Permanecer como judeu depois do prazo expunha a pessoa à morte e ao confisco de seus bens. Também eram ameaçados aqueles que a acolhessem.1

Assinar o decreto não significava que todos o tivessem conhecido naquele dia. Sua divulgação ocorreu depois: em Castela, no começo de maio. Para organizar a saída, restavam poucos meses.2

O argumento dos governantes

A justificativa apresentada era impedir que a convivência com judeus levasse cristãos de origem judaica a observar práticas judaicas. O documento menciona ensino, festas, alimentos e relações entre famílias. Atividades normais da vida religiosa eram transformadas em acusação contra a comunidade.1

Isso ajuda a distinguir dois mecanismos. A Inquisição perseguia, entre outros acusados, batizados suspeitos de praticar o judaísmo. A expulsão atingia quem continuava publicamente judeu. Eram medidas relacionadas, mas não idênticas.

O fato de a Coroa apresentar uma justificativa não torna essa justificativa neutra. O decreto é uma fonte sobre o projeto de quem expulsava; não uma prova de culpa coletiva dos expulsos.

O que uma lei não consegue contar

O texto permite conhecer a ordem. Não informa, sozinho, como cada pessoa encontrou transporte, conseguiu vender uma casa ou decidiu o que levar. Para isso, precisamos de outros registros e testemunhos.

Também devemos resistir a cenas célebres que parecem explicar tudo. O historiador Haim Beinart distingue a tradição sobre a intervenção de Abravanel das provas disponíveis e trata como lenda a cena em que Torquemada teria interrompido uma negociação com uma cruz.2

O essencial é suficientemente grave sem esse efeito dramático: pessoas que viviam havia gerações naquelas terras perderam o direito de continuar vivendo ali como judeus. A pergunta seguinte já não era apenas “para onde ir?”, mas “como partir com uma vida inteira?”.

Fontes e documentos deste artigo
  1. Decreto de expulsão de 1492 — texto em tradução, Center for Online Judaic Studies
  2. Haim Beinart, The Expulsion of the Jews from Spain, capítulo The Implementation of the Edict — trecho disponível, Liverpool University Press (2001)
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