Quando encontramos a palavra Cabalá em um livro, uma aula ou uma publicação na internet, podemos imaginar que todos estejam falando da mesma coisa. Haveria um conjunto de ideias, um vocabulário e uma maneira única de compreender seus ensinamentos. Bastaria aprender esse conjunto para reconhecer qualquer autor.
Quero começar esta série desfazendo essa expectativa. Existe uma tradição cabalística judaica, mas ela reúne textos, interpretações e projetos diferentes. Alguns autores se concentram nas Sefirot. Outros investigam a experiência profética, a linguagem, a alma, a oração ou o sentido da história. Mesmo quando partilham referências, não fazem necessariamente as mesmas perguntas.
Reconhecer essa diversidade nos ajuda a estudar com mais precisão. Também evita um problema comum: apresentar a explicação de um mestre como se fosse a definição aceita por todos os outros.
Uma tradição não precisa ser uniforme
Uma tradição vive porque recebe, interpreta e transmite. Receber não significa apenas repetir palavras. É também responder a dificuldades novas e explicar uma herança para pessoas que vivem em outras circunstâncias.
Na literatura cabalística, encontramos comentários de textos anteriores, tentativas de organização, novas formulações e discussões. O próprio índice do Pardes Rimonim, de Rabi Moshe Cordovero, apresenta questões: a relação entre o Infinito e Keter; a natureza dos instrumentos da manifestação; a ordem das Sefirot; o significado dos nomes. A existência dessas investigações mostra que a tradição comporta problemas reais de interpretação.
Isso não significa que qualquer afirmação possa ser chamada de Cabalá. A diversidade que nos interessa está vinculada à Torá, à língua dos textos, às fontes rabínicas e aos debates internos do judaísmo. Retirar algumas palavras desse universo e empregá-las em uma promessa comercial não basta para constituir uma escola.
Também precisamos distinguir diversidade de equivalência. Duas interpretações podem ter importância histórica sem receber a mesma aceitação religiosa. Um autor pode ter leitores influentes e enfrentar forte oposição. Descrever essa situação exige dizer quem aceita, quem contesta e qual é o ponto discutido.
A pergunta muda a explicação
Vamos imaginar três leitores diante de uma passagem sobre a luz divina.
O primeiro pergunta como a unidade de Deus se relaciona com a multiplicidade dos modos de manifestação. O segundo quer compreender a relação entre a luz e a capacidade de receber. O terceiro investiga o que essa linguagem ensina sobre o trabalho interior humano.
Essas perguntas podem se encontrar, mas não são intercambiáveis. Em um texto, a palavra luz participa de uma descrição das relações entre níveis espirituais. Em outro, recebe uma definição especialmente ligada ao benefício concedido ao ser criado. Em um ensinamento chassídico, pode ajudar a explicar a dependência contínua da existência em relação ao Criador.
Por isso, quando abrimos um autor, uma pergunta simples nos orienta: o que ele está tentando explicar nesta passagem? Antes de comparar respostas, precisamos reconhecer os problemas a que respondem.
Na abertura da Petichah LeChokhmat HaKabbalah, por exemplo, Rabi Yehuda Ashlag organiza sua exposição a partir da finalidade da criação e da vontade de receber. No primeiro portal do Klach Pitchei Chochmah, o Ramchal coloca a unidade do governo divino como fundamento. Há relações entre essas formulações, mas uma não deve ser silenciosamente substituída pela outra.
O que significa chamar algo de escola?
A palavra escola pode indicar um círculo de discípulos, uma maneira de interpretar textos ou uma tradição de transmissão. Nem sempre designa uma instituição com limites definidos.
Há autores que reorganizam um vasto material recebido. Há outros cujas formulações se tornam referência para gerações. Há comentários que desenvolvem uma tradição sem pretender fundar outra. E existem movimentos religiosos amplos, como o chassidismo, que acolhem várias linhagens de pensamento.
Quero evitar transformar esta série em uma coleção de marcas: uma escola para cada nome famoso. Gikatilla não resume toda a Cabalá medieval; o Arizal não apaga os cabalistas anteriores; Chabad não representa sozinho todo o chassidismo; Manitou não precisa ser apresentado como fundador de uma nova Cabalá para reconhecermos sua contribuição.
Podemos estudar autores lado a lado sem supor que possuem o mesmo papel histórico.
Como outros sábios explicaram este conceito?
Ao longo desta série, usaremos comparações para esclarecer diferenças concretas. Um exemplo é a relação entre o conhecimento e a vida espiritual.
Em Cordovero, encontramos um esforço de ordenar conceitos e interpretar relações entre as Sefirot. Em Abulafia, a investigação da linguagem se liga à busca de realização profética. No Tanya, de Rabi Shneur Zalman de Liadi, as faculdades intelectuais e emocionais entram em uma descrição do serviço a Deus. O capítulo 3 explica a relação entre entendimento e sentimentos religiosos.
O conhecimento importa nos três casos. Entretanto, o lugar que ocupa e o objetivo da exposição variam. Seria pobre dizer apenas que todos ensinam a pensar positivamente. Seria igualmente pobre afirmar que não existe nenhuma relação entre eles.
A comparação é fecunda quando preserva o que aproxima e o que distingue. Não precisa produzir concordância total.
A perspectiva tradicional e a investigação histórica
Há mais de uma pergunta legítima a fazer sobre um texto. A tradição pode investigar como ele transmite ensinamentos recebidos e como se integra ao estudo religioso. A historiografia pergunta por manuscritos, circulação, composição, vocabulário e contextos sociais.
Essas abordagens não usam os mesmos critérios. Dizer que uma obra é tradicionalmente atribuída a um sábio antigo não resolve, por si só, sua história de redação. Dizer que um pesquisador identifica uma composição medieval não descreve tudo o que a obra representa para seus leitores religiosos.
Nesta biblioteca, vou identificar a natureza da afirmação. Quando se tratar de atribuição tradicional, ela será apresentada como tal. Quando se tratar de reconstrução histórica, precisaremos considerar as evidências e os limites dessa reconstrução. A disciplina de distinguir essas vozes preserva o respeito e melhora o entendimento.
Um mapa para os próximos artigos
Começaremos por textos e ambientes anteriores à circulação medieval do Zohar. Depois, examinaremos o universo zohárico e Gikatilla, a orientação de Abulafia, a organização de Cordovero e a linguagem do Arizal. Em seguida, veremos o Ramchal, o pensamento chassídico, Baal HaSulam e Manitou.
Essa sequência é uma escolha de apresentação. Não é uma escada em que o último autor torna os anteriores ultrapassados. Cada artigo deverá ajudar a reconhecer uma pergunta, um vocabulário e uma maneira de estudar.
Há uma consequência prática. Quando uma aula disser que a Cabalá ensina determinada ideia, poderemos perguntar com tranquilidade: em qual obra, segundo qual interpretação e com que alcance? Essa pergunta não diminui a tradição. Ela nos permite recebê-la com mais responsabilidade.
Para refletir
- Quando encontro uma explicação espiritual atraente, procuro saber de quem ela é?
- Consigo reconhecer uma diferença sem transformar imediatamente um dos lados em inimigo?
- Estou aprendendo a linguagem de um autor ou supondo que minhas palavras habituais já explicam o que ele quis dizer?
Fontes para continuar estudando
- Ramak, Pardes Rimonim: fonte primária; o índice permite reconhecer a extensão de sua investigação.
- Ramchal, Klach Pitchei Chochmah, portal 1: fonte primária sobre a unidade do governo divino.
- Baal HaSulam, Petichah LeChokhmat HaKabbalah, abertura: fonte primária sobre criação e recepção.
- Tanya, capítulo 3: fonte primária, com explicações editoriais identificáveis na edição.