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Por que Deus criou o mundo?

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Providência e liberdade · AMOSTRA ABERTA

Por que Deus criou o mundo?

Quando perguntamos por que alguém fez alguma coisa, costumamos procurar uma necessidade: queria obter algo, resolver um problema, preencher uma ausência. Aplicar essa estrutura diretamente a Deus produziria uma dificuldade. Se Ele

אIlan Nigri7 min de leitura · Fontes judaicas

Quando perguntamos por que alguém fez alguma coisa, costumamos procurar uma necessidade: queria obter algo, resolver um problema, preencher uma ausência. Aplicar essa estrutura diretamente a Deus produziria uma dificuldade. Se Ele precisasse da criação para se completar, não seria a fonte da perfeição de que estamos falando.

Eu proponho distinguir três perguntas: o que faltava a Deus, que finalidade as fontes atribuem à criação e o que essa finalidade pede de nós. A primeira não pode ser respondida inventando uma carência divina; as outras abrem um campo real de estudo.

Beneficiar não é preencher uma falta

No Derekh Hashem I:2:1, Ramchal apresenta a finalidade da criação como beneficiar outros com o bem divino. Como a perfeição absoluta pertence a Deus, o bem mais elevado acessível às criaturas consiste numa proximidade com Ele, na medida em que podem recebê-la.

Não se trata de proximidade espacial. Uma criatura não percorre quilômetros até alcançar Deus. A adesão, chamada devekut, envolve sua relação com a fonte do bem e seu aperfeiçoamento.

Nos parágrafos seguintes, Ramchal acrescenta que a criatura deve participar da aquisição desse bem. O processo não acrescenta perfeição a Deus; modifica a condição de quem recebe. Essa direção do argumento é essencial: a finalidade da criação não é fornecer a Deus algo que Lhe faltava.

Que tipo de bem?

Se interpretarmos beneficiar como garantir conforto imediato, logo perderemos o argumento. O texto fala de uma condição de perfeição e adesão, não de uma sequência sem obstáculos em que todo desejo comum seja realizado.

Também não podemos concluir que qualquer experiência desagradável seja boa exatamente como se apresenta. Distinguir finalidade e experiência imediata abre uma pergunta; não fornece antecipadamente a explicação de cada sofrimento.

Uma educação pode ter finalidade benéfica e exigir esforço. A comparação ajuda a distinguir esforço e finalidade, mas possui um limite: não podemos usá-la para justificar crueldade, como se tudo que machuca fosse por isso educativo. A qualidade dos meios continua sendo uma questão.

O Klach e a revelação da unidade

Na abertura 1 do Klach Pitchei Chochmá, Ramchal estabelece a unidade do governo divino. Não existe uma vontade independente capaz de constituir um poder supremo rival. Essa afirmação não elimina, de saída, a escolha humana; ela nega que a criatura possua a independência de uma segunda origem absoluta.

Na abertura 4, o autor relaciona benefício pleno, participação e revelação da unidade. A ordem admite corrupção e a conduz à correção; o mal não terá a última palavra. A revelação dessa unidade participa do próprio bem recebido pelas almas.

Há, portanto, uma articulação: beneficiar é a finalidade; a revelação da unidade explica um sentido do percurso pelo qual ela se realiza. Não precisamos tratar essas duas formulações como frases concorrentes, nem fundi-las sem mostrar sua relação no texto.

Unidade não é aprovação de todos os atos

Uma dificuldade aparece imediatamente: se nada estabelece um domínio absoluto fora de Deus, toda conduta seria igualmente aceitável?

Não. A distinção entre corrupção e correção deixaria de ter sentido se o autor considerasse todos os atos equivalentes. A possibilidade de uma reparação final não transforma a ação injusta em mitzvá. A responsabilidade pertence à condição presente da criatura, enquanto a finalidade do governo não fica limitada ao êxito imediato de cada indivíduo.

Podemos compreender essa diferença sem fingir que ela resolve todas as dificuldades da providência. Ela impede, pelo menos, uma conclusão incorreta: considerar dispensável agir bem porque a história possuiria uma finalidade.

O limite formulado por Rambam

No Guia dos Perplexos III:13, Rambam questiona a ideia de que toda a existência deva ser apenas um instrumento para a humanidade. Ele observa também que, mesmo quando indicamos o aperfeiçoamento humano como finalidade, a pergunta pode continuar: por que esse aperfeiçoamento? O encadeamento termina na vontade ou sabedoria divina, e não numa causa que obrigue Deus.

A posição não é uma negação de toda intenção ou sabedoria na criação. É uma crítica a explicações que pretendem colocar a totalidade do universo a serviço de uma única utilidade humana ou encontrar uma necessidade anterior à vontade divina.

Essa reserva não deve ser apagada para fazer Rambam dizer exatamente o mesmo que Ramchal. O Guia limita o alcance da pergunta; o Derekh Hashem desenvolve uma exposição determinada da finalidade do benefício. O leitor precisa reconhecer ambos os movimentos.

Olhar o processo por sua finalidade

Na Introdução ao Livro do Zohar 1–4, Baal HaSulam começa com perguntas sobre a condição humana, a perfeição do Criador e a existência do sofrimento. Propõe examinar a finalidade para compreender um processo que, visto no meio, permanece incompleto. Distingue ainda o estudo das obras divinas de uma pretensão de apreender Sua essência.

Esse é um método de leitura: o estado presente não esgota o que a criatura pode vir a ser. Mas a referência ao fim não concede ao estudante conhecimento de todos os caminhos concretos. Saber qual pergunta o autor formula é diferente de possuir uma explicação pronta para a vida de alguém.

Uma finalidade não funciona como adivinhação

A diferença tem consequências. Posso afirmar, acompanhando Ramchal, uma finalidade de benefício e correção. Não posso deduzir daí que conheço a razão de uma perda específica, o prazo de uma mudança ou o resultado de uma decisão particular.

Prometer essas informações em nome da Cabalá acrescenta uma autoridade que o argumento não forneceu. Quando a promessa é comercializada, o problema fica ainda mais sério: a expectativa de sentido pode ser explorada para vender certeza.

O estudo permite uma confiança fundamentada numa concepção de governo, acompanhada de honestidade sobre aquilo que não sabemos. A pergunta pela finalidade continua fecunda sem se converter num serviço de previsão.

O que essa pergunta muda na vida?

Para mim, sua consequência mais exigente é deixar de tratar a existência apenas como satisfação imediata ou como disputa por controle. Se a criatura participa da aquisição do bem, nossas escolhas importam. Se não somos a finalidade exclusiva de tudo, nossa responsabilidade precisa conviver com humildade.

Essas duas orientações se corrigem mutuamente: participação sem humildade pode se tornar pretensão de governar tudo; humildade sem participação pode virar desistência. A série examinará esse campo em detalhes, começando pela pergunta sobre nossa condição inicial de imperfeição.

Para refletir: por que finalidade da criação não significa necessidade de Deus? Como benefício e revelação da unidade se articulam no Klach? Qual limite Rambam coloca à pretensão de explicar a finalidade de tudo?

Para continuar estudando

  • Ramchal, Derekh Hashem I:2:1–3: benefício, adesão e participação; texto.
  • Ramchal, Klach Pitchei Chochmá 1 e 4: unidade do governo e finalidade da correção; 1, 4.
  • Rambam, Guia dos Perplexos III:13: limites da pergunta e crítica da finalidade exclusivamente humana; texto.
  • Baal HaSulam, Introdução ao Livro do Zohar 1–4: perguntas iniciais e exame pela finalidade; original. Trata-se da introdução do comentarista, não de passagem original do Zohar.
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