UNIVERSO JUDAICO · POR ILAN NIGRI

A história possui um sentido?

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História e identidade · AMOSTRA ABERTA

A história possui um sentido?

Podemos conhecer datas, guerras e mudanças de governo e ainda perguntar: o que a humanidade está tentando realizar? Essa pergunta não substitui a investigação dos acontecimentos. Ela interroga sua finalidade e o

אIlan Nigri6 min de leitura · Fontes judaicas

Podemos conhecer datas, guerras e mudanças de governo e ainda perguntar: o que a humanidade está tentando realizar? Essa pergunta não substitui a investigação dos acontecimentos. Ela interroga sua finalidade e o tipo de ser humano que se forma no tempo. É por essa entrada que quero apresentar a contribuição de Manitou para nossa biblioteca.

Rav Yehuda Leon Ashkenazi lê a Torá também como revelação de um projeto de humanidade. Os relatos de nascimento, separação, fraternidade e aliança não são um intervalo entre leis. A passagem de uma geração a outra pode transmitir vida, mas precisa transmitir também a capacidade de viver com o outro.

A história não é apenas uma sequência

Uma cronologia responde quando algo aconteceu. Uma explicação causal investiga condições e agentes. Uma leitura de sentido pergunta pelo fim em relação ao qual se pode julgar uma transformação. As três perguntas podem conversar, mas nenhuma dispensa as outras.

Por exemplo, o surgimento de uma instituição pode ser descrito por suas condições econômicas e políticas. Isso ainda não responde se ela protege melhor a dignidade das pessoas. Uma finalidade religiosa também não nos permite inventar seus documentos ou ignorar como ela realmente funciona.

Essa distinção será constante nesta série. Quando acompanho Manitou, apresento uma leitura teológica da história a partir da Torá e da tradição. Quando examino um fato histórico, preciso de evidências apropriadas ao fato. O significado atribuído não é, por si só, a prova do acontecimento.

O mundo do sétimo dia

No desenvolvimento sobre Chana em Shaarei Dimah, volume 1, Manitou relaciona o sétimo dia à história humana. O mundo oferece uma ordem estável na qual a liberdade pode agir. Distingue também nossa experiência do percurso, com tensão e possibilidade real de fracasso, da leitura retrospectiva que reconhece como o fim se relacionava ao propósito inicial. O fim não é um conhecimento que o agente já possui enquanto age. Shaarei Dimah 1, “A falta existencial de Chana”, desenvolvimento sobre história e sétimo dia.

Essa leitura dá espessura à responsabilidade. Se o percurso fosse apenas uma encenação de decisões sem alcance, seria difícil compreender a seriedade do mandamento. Se, por outro lado, nenhum propósito orientasse o caminho, teríamos somente a sucessão dos fatos.

Não se trata de afirmar que Deus deixou de sustentar a existência. A cessação da obra criadora em Bereshit 2:1–3 e a continuidade da dependência do mundo pertencem a questões diferentes. O texto bíblico oferece a base do sétimo dia; a identificação de toda a história humana com seu desenvolvimento é a elaboração que estamos acompanhando. Bereshit 2:1–3.

O tempo como possibilidade de realizar a verdade

Em Sod Midrash HaToladot 4, no trecho sobre a verdade na história, Manitou interpreta a distância entre o humano existente e sua realização no pensamento da Criação. O tempo permite trabalhar essa distância. A verdade não é apenas uma ideia contemplada: torna-se critério para julgar o que se realiza. Sua leitura do midrash sobre a verdade lançada à terra desenvolve justamente essa passagem entre propósito e efetivação. Sod Midrash HaToladot 4, “Desenvolvimento ou evolução aleatória?”, seção sobre verdade e realidade.

Gosto de tornar a diferença concreta: uma sociedade pode declarar que respeita a pessoa e ainda organizar suas relações de modo humilhante. Possuir a formulação correta não significa já tê-la realizado. O intervalo entre palavra e conduta é um campo de trabalho, não uma prova de que a palavra era necessariamente vazia.

Isso também permite distinguir novidade e progresso. Algo novo pode piorar nossas relações. Um avanço técnico, embora valioso, não equivale automaticamente a uma realização moral. O critério precisa interrogar o que se tornou possível e a quem essa possibilidade serve.

O diálogo com Ramchal

Na abertura 37 do Klach, Ramchal situa corrupção e reparação em suas raízes espirituais e distingue os ciclos ainda incompletos de um reparo final que não será seguido de nova corrupção. Não descreve uma sequência em que qualquer mudança já seja uma melhora. Há um governo do processo e uma finalidade que excede seus estados parciais. Klach Pitchei Chochmá, abertura 37.

Essa exposição permite um diálogo com a pergunta de Manitou pela realização no tempo. Não devemos, porém, atribuir automaticamente a Ramchal cada interpretação de um episódio contemporâneo, nem apresentar Manitou como simples repetidor de uma abertura do Klach. Um desenvolve aqui a raiz e o governo da reparação; o outro torna a formação histórica da identidade humana um objeto central da leitura bíblica.

O sentido não absolve os meios

Se a história possui finalidade, isso não torna justa toda ação feita em seu nome. Afirmar que um futuro será bom não autoriza maltratar as pessoas que vivem agora. Também não permite chamar toda perda de etapa necessária cujo motivo conhecemos.

A pergunta religiosa pode sustentar esperança sem produzir onisciência. Não sei explicar o destino particular de cada sofrimento. Posso, entretanto, reconhecer deveres de cuidado, justiça e estudo que não precisam esperar por uma explicação total.

É esse o ponto de partida que proponho: procurar o sentido da história significa perguntar como o projeto humano pode ganhar realidade. Nos próximos artigos, acompanharemos essa questão desde Adam e a fraternidade até a identidade de Israel, o exílio, o retorno e a responsabilidade pela redenção.

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ÍNDICE COMPLETO

Cabalá 10 — A história e a identidade de Israel: a contribuição de Manitou

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