Ordem, vontade e finalidade: por onde começar o estudo dos segredos da Criação.
Quando perguntamos como alguma coisa acontece, procuramos processos e relações. Quando perguntamos por seu sentido, estamos fazendo outra pergunta: a que ela se dirige, que valor possui e como devemos responder à sua existência.
O estudo judaico da Criação envolve essas perguntas sem torná-las automaticamente equivalentes. Quero começar esta série pela afirmação religiosa que orienta o percurso: o mundo depende de uma vontade e possui uma ordem que merece ser compreendida. Isso não significa que conhecemos a finalidade particular de tudo o que acontece.
O que o título afirma
Chamar a Criação de algo com sentido não é apresentar uma equação física nem provar que todo processo natural precisa ser imprevisível para conter ação divina. Um acontecimento pode ter causas que investigamos e continuar situado numa compreensão religiosa mais ampla.
Da mesma forma, acaso pode nomear uma condição dentro de uma explicação científica ou estatística. Seu uso não resolve, por si, a pergunta metafísica sobre a existência do conjunto. Seria impreciso concluir que uma teoria natural afirma ou nega automaticamente tudo o que os textos religiosos discutem.
O sentido de nosso título é determinado: na leitura da Torá e das obras aqui estudadas, o mundo não é tratado como realidade sem origem divina, sem valor e sem responsabilidade. A explicação precisa agora mostrar como os autores desenvolvem essa afirmação e onde estabelecem seus limites.
“Muito bom”: a leitura do conjunto
Bereshit 1:31 apresenta a avaliação de tudo o que foi feito: והנה טוב מאד, e eis que era muito bom. O versículo não observa apenas um elemento isolado; volta-se ao conjunto da obra.
O Ramban, no comentário à passagem, relaciona essa formulação à ordem e à permanência do conjunto, mesmo quando algo considerado separadamente parece adverso. Sua leitura não elimina a dificuldade; distingue parte e totalidade.
Precisamos conservar a diferença entre afirmar uma ordem e conhecer todos os seus motivos. Uma pessoa pode acolher uma compreensão religiosa do mundo sem possuir a explicação de uma perda particular. Dizer a alguém que sua dor era necessária, sem conhecimento que sustente a afirmação, não se torna rigoroso por usar o vocabulário do bem maior.
Esse limite não esvazia a pergunta. Ele permite estudá-la sem usurpar um conhecimento que não temos.
O benefício na exposição do Ramchal
No Derekh Hashem I:2, Ramchal apresenta a finalidade da criação como benefício. O bem pleno é relacionado à aproximação possível da criatura a Deus, não apenas à acumulação de experiências agradáveis.
O argumento inclui participação: a criatura deve poder adquirir o bem, em vez de apenas carregá-lo como algo que não envolve sua atuação. A possibilidade de aperfeiçoamento e de afastamento se torna parte da explicação.
Isso não significa que Deus precisava de alguém para completar sua existência. O benefício se dirige à criatura; a fonte não recebe dela uma perfeição que antes lhe faltava.
Também não significa que o sofrimento cotidiano seja simplesmente uma ferramenta cujo motivo sabemos identificar em cada caso. O livro apresenta uma finalidade e uma ordem geral. A passagem dessa afirmação para acontecimentos particulares exige um conhecimento adicional que o articulista não pode presumir.
Unidade como finalidade de revelação
No Klach Pitchei Chochmá 4, Ramchal articula o benefício completo à manifestação da unidade: a condução atravessa a possibilidade do mal e caminha para sua superação e reparação.
A unidade, nesse argumento, não consiste apenas em contar uma divindade em vez de várias. Inclui a afirmação de que nenhuma oposição constitui uma autoridade última capaz de tornar impossível a finalidade da condução.
Essa é uma tese forte. Ela não chama o mal moral de bem enquanto é praticado nem retira a obrigação de resistir a ele. O aperfeiçoamento futuro não transforma a injustiça presente em autorização para quem a comete.
A linguagem de reparação examina uma direção do conjunto. Não é uma senha para declarar resolvido tudo aquilo cuja dor ainda não compreendemos.
Rambam estabelece outro limite para a pergunta
No Guia dos Perplexos III:13, Rambam examina a procura de uma finalidade última para toda a existência e contesta a suposição de que tudo existe apenas como instrumento das necessidades humanas.
Seu argumento distingue finalidades entre coisas e a pergunta pelo conjunto. Mesmo que se diga que o ser humano existe para servir, permanece a pergunta por que Deus quis essa existência, sem que o serviço acrescente perfeição ao Criador. A investigação chega à vontade e à sabedoria divinas, sem submetê-las a uma necessidade externa.
Essa abordagem não é idêntica à organização do benefício e da revelação da unidade no Ramchal. Ambas preservam a ausência de carência divina, mas o modo de desenvolver e limitar a pergunta é diferente.
Comparar as obras exige manter essa diferença. Não vamos transformar toda a tradição num único parágrafo em que os autores apenas repetem a mesma resposta.
Uma ordem diferenciada não indica dificuldade do Criador
Avot 5:1 afirma que o mundo foi criado por dez pronunciamentos e pergunta por que falar assim se poderia ter sido criado por um só. A questão não supõe uma incapacidade divina de realizar a obra sem etapas.
O comentário de Rambam à Mishná relaciona a apresentação diferenciada à grandeza e à boa ordem da existência. A responsabilidade de conservar ou danificar deve ser compreendida diante do valor daquilo que foi confiado à atividade humana.
Esse ponto prepara a linguagem cabalística dos graus. Uma ordem de manifestação não precisa narrar tentativas de um Criador que ainda não sabia agir. Ela permite estudar diferenciações, dependências e relações na realidade criada.
Também explica por que letras, números e imagens não devem ser tomados como uma decoração misteriosa. Cada elemento precisa ajudar a compreender uma relação. Caso contrário, apenas multiplicamos nomes sem ensinar nada.
O sentido não dispensa a responsabilidade
Uma pessoa pode acreditar que o mundo possui finalidade e ainda agir como se sua participação fosse dispensável. Também pode concluir que, se há governo divino, nada do que faz teria importância.
As fontes examinadas nos levam a outra pergunta: que uso faremos da existência recebida? A confiança numa ordem não substitui justiça, cuidado ou estudo. Pode ampliar a seriedade com que os assumimos.
Imagine uma oportunidade de corrigir uma informação falsa. Não preciso conhecer o sentido inteiro da história para reconhecer o trabalho presente. Há um dano que posso interromper e uma verdade que posso ajudar a esclarecer.
Essa responsabilidade não pretende resolver a Criação inteira por um ato. Ela reconhece que uma finalidade maior não torna irrelevante a parcela concreta que nos cabe.
Como seguiremos nesta série
O próximo artigo tratará de Tzimtzum: como os textos explicam a possibilidade de uma existência limitada e diferenciada sem dividir ou esvaziar Deus. Depois estudaremos os 32 caminhos, as letras, a palavra e os símbolos de Alef, Mem e Shin.
O artigo sobre diferenças e limites reunirá os mundos, Shevirat HaKelim e Tikun, preservando sua sequência na arquitetura luriana. Não usaremos quebra como simples sinônimo de tristeza nem reparação como palavra vaga para qualquer melhora.
Encerrando, examinaremos imagem divina e Shabat. O percurso deve tornar inteligível uma ligação: origem, ordem, diferenciação e finalidade. Conhecer os termos será útil à medida que conseguirmos explicar as relações.
Para refletir: como a pergunta por processos difere da pergunta por sentido? O que distingue a exposição do Ramchal do limite formulado por Rambam? Por que afirmar uma finalidade geral não nos dá a explicação de cada sofrimento particular?
Para continuar estudando
- Bereshit 1:31 e Ramban ao versículo: “muito bom”, ordem e relação entre parte e conjunto.
- Ramchal, Derekh Hashem I:2: benefício, aproximação e participação da criatura.
- Ramchal, Klach Pitchei Chochmá 4: revelação da unidade e reparação como finalidade da condução.
- Rambam, Guia dos Perplexos III:13: limites da pergunta por finalidade última e crítica da centralidade humana absoluta; tradução de Shmuel ibn Tibbon.
- Avot 5:1 e comentário de Rambam: pronunciamentos, valor da ordem e responsabilidade.