UNIVERSO JUDAICO · POR ILAN NIGRI

O que a emancipação mudou na vida de um judeu?

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Quando os judeus se tornaram cidadãos · AMOSTRA ABERTA

O que a emancipação mudou na vida de um judeu?

Quando uma permissão especial começou a dar lugar a um direito.

אIlan Nigri4 min de leitura · Fontes judaicas

Final do século XVIII e século XIX · 4 min de leitura

Em janeiro de 1808, uma lei do Reino da Vestfália determinou que os judeus poderiam casar-se, organizar a educação dos filhos e transmitir-lhes bens sem precisar das autorizações especiais antes exigidas. Também aboliu tributos que recaíam especificamente sobre judeus. Por trás dessas disposições estava uma mudança profunda: a religião deixaria de justificar uma condição jurídica inferior.1

É por esse caminho concreto que vale entrar na história da emancipação. A palavra designa o processo pelo qual os judeus conquistaram igualdade civil e política nas sociedades onde viviam. Não houve um decreto europeu que abriu todas as portas. Cada governo tinha suas leis, cada avanço tinha um alcance, e certas restrições sobreviveram a declarações de igualdade.

Representação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, atribuída a Jean-Jacques-François Le Barbier. As figuras e os símbolos compõem uma alegoria política; a imagem não é uma fotografia da votação nem o manuscrito do decreto de emancipação judaica.
Representação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, atribuída a Jean-Jacques-François Le Barbier. As figuras e os símbolos compõem uma alegoria política; a imagem não é uma fotografia da votação nem o manuscrito do decreto de emancipação judaica.Obra atribuída a Jean-Jacques-François Le Barbier; Musée Carnavalet, Paris · Domínio público · Acervo e crédito completo

Ser tolerado não era ser igual

Em sociedades anteriores, uma família podia ter o direito de residir numa cidade por meio de uma concessão particular. Esse amparo tinha valor real, mas não equivalia ao reconhecimento de que a condição judaica não poderia ser usada para excluí-la. A diferença aparecia quando um filho pretendia estabelecer sua própria casa, mudar de lugar ou exercer uma atividade.

A legislação vestfaliana ajuda a perceber essa passagem. Ela não apenas prometia benevolência: retirava certas exigências especiais e remetia as famílias às regras gerais. Assim, uma questão antes tratada como licença concedida a um grupo passava a ser apresentada como direito compartilhado com outros habitantes. A lei continuava exigindo deveres e observância das normas profissionais.

Uma ideia de igualdade que exigia decisões

A Declaração francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, de agosto de 1789, formulou a igualdade em linguagem universal. A distância entre esse princípio e sua aplicação aos judeus, entretanto, precisou ser disputada politicamente. Declarar direitos e decidir quem os exerceria eram etapas distintas.2

Ler uma fonte · França, 1789

“Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos.”

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, artigo 1. Tradução própria do francês. O princípio não significou concessão automática de cidadania aos judeus.

Também é preciso distinguir direitos civis e políticos. Poder adquirir um imóvel ou exercer uma profissão não era o mesmo que votar ou ocupar uma função pública. E igualdade entre homens de religiões diferentes não significava participação política de todas as pessoas: as mulheres continuavam excluídas do voto, enquanto outros critérios podiam restringir os direitos políticos dos homens.

O que acontecia com a comunidade?

As coleções anteriores mostraram que a kehilá organizava serviços, arrecadação e responsabilidades. A emancipação alterava a relação entre esse corpo coletivo e o Estado. No debate francês, ganhou força a defesa de que os judeus fossem cidadãos individualmente, submetidos à mesma justiça dos demais, sem conservar uma jurisdição civil separada.3

Isso abria possibilidades e mudava antigas formas de autoridade. A sinagoga, o estudo e a assistência poderiam continuar, mas sua posição jurídica precisaria ser reorganizada. Um judeu poderia buscar integração na sociedade sem considerar encerrado seu pertencimento a Am Israel. O enquadramento do Estado e a compreensão judaica da própria identidade não eram necessariamente iguais.

A conquista central era poder reivindicar direitos sem precisar deixar de ser judeu. O desafio seguinte seria descobrir como exercer essa liberdade e preservar uma vida coletiva. A emancipação, portanto, transformou tanto as relações com os vizinhos e o governo quanto as perguntas que as famílias judaicas faziam sobre o próprio futuro.

Fontes e documentos
  1. Jérôme Napoléon. Decreto de 27 de janeiro de 1808, arts. 1–5. Texto em German History in Documents and Images, tradução inglesa de Richard Levy.
  2. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 26 de agosto de 1789, especialmente arts. 1, 6 e 10. Texto francês no Légifrance.
  3. Stanislas de Clermont-Tonnerre. Discurso de 23 de dezembro de 1789. Texto em Liberty, Equality, Fraternity, tradução publicada por Lynn Hunt, 1996, pp. 86–88.
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