UNIVERSO JUDAICO · POR ILAN NIGRI

Os primeiros judeus da Península Ibérica

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A formação de Sefarad · AMOSTRA ABERTA

Os primeiros judeus da Península Ibérica

Uma criança morreu com pouco mais de um ano. Sua inscrição funerária, encontrada em Adra, no sul da Península Ibérica, conservou um nome, Annia Salomonula, e uma identificação: Iudaea, judia. Antes dos grandes poetas e das yeshivot de Sefarad, a história também deixou marcas pequenas e dolorosas como essa.1

אIlan Nigri3 min de leitura · Fontes judaicas

Uma presença anterior à Espanha medieval

Sefarad tornou-se o nome hebraico associado à Península Ibérica e à tradição judaica formada ali. Mas suas primeiras comunidades não nasceram num país chamado Espanha com as fronteiras atuais. A região passou pelo domínio romano, por reinos visigodos e, depois, por governos muçulmanos e cristãos.

As rotas mediterrâneas ajudam a compreender a chegada de populações judaicas. Não conhecemos, porém, um navio inaugural nem uma única leva da qual todos descenderiam. As evidências permitem reconhecer uma presença antiga; não estabelecer uma data comum de fundação.2

Pessoas, línguas e instituições

Outra inscrição, a de Annianus, menciona uma ligação com duas sinagogas. Sua datação é discutida; um catálogo epigráfico acadêmico a situa entre o final do século IV e o início do V. Também há debate sobre a função exata designada pelo título presente no texto.3

Essa cautela não esvazia o documento. Ele mostra que a história não se limitava a indivíduos isolados: havia instituições e formas de reconhecimento comunitário. Ao mesmo tempo, não permite desenhar o interior das sinagogas nem localizar com certeza ambas na mesma cidade.

A presença de latim nesses registros lembra que viver como judeu não significava usar apenas o hebraico. As comunidades participavam de ambientes linguísticos locais, conservando sinais próprios de pertencimento.

Entre memória e prova histórica

Tradições posteriores relacionaram a chegada dos judeus à época de reis bíblicos. Elas pertencem à memória construída em torno de Sefarad. Não possuem, por si, o mesmo valor de uma inscrição localizada, estudada e datada.

O começo mais seguro para o leitor é este: havia judeus na Península muitos séculos antes da conquista muçulmana. A cultura sefardita medieval floresceria sobre uma história anterior de famílias, instituições e vínculos mediterrâneos. Conhecer essa base impede que Sefarad apareça como uma comunidade criada de repente por um governante favorável.

Fontes e documentos deste artigo
  1. Hispania Epigraphica Online — inscrição de Annia Salomonula, registro 41
  2. Ministerio de Cultura — Museo Sefardí, apresentação das coleções
  3. CIL II Digital, Universidad de Alcalá — epitáfio de Annianus, Mérida
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