Uma pessoa trabalha com honestidade durante a vida inteira e passa por dificuldades. Outra engana, explora e vive cercada de conforto. Uma família dedica seus dias a ajudar os outros e enfrenta uma perda terrível. Ao observar situações assim, surge uma pergunta difícil de afastar: se existe justiça divina, onde ela está? Essa pergunta não nasce necessariamente da falta de fé. Muitas vezes, nasce justamente da convicção de que a vida deveria ter uma ordem moral e de que fazer o bem deveria importar.
O problema se torna mais profundo quando percebemos que não estamos falando apenas de dinheiro. Há pessoas perversas que recebem admiração, influência e tranquilidade. Há pessoas boas que são esquecidas, humilhadas e atingidas por acontecimentos que não escolheram. Se a única medida da justiça fosse a distribuição imediata de benefícios, teríamos dificuldade para reconhecer nela qualquer coerência. É por isso que precisamos começar nosso estudo perguntando o que chamamos de recompensa, o que chamamos de punição e qual parte da existência estamos observando.
O Salmo 73 apresenta esse conflito com uma sinceridade impressionante. Seu autor, Asaf, não descreve uma dúvida abstrata. Ele conta o que aconteceu consigo ao olhar para a prosperidade dos perversos:
“Quanto a mim, meus pés quase se desviaram; meus passos quase escorregaram. Pois tive inveja dos arrogantes, ao ver a tranquilidade dos perversos.” — Salmo 73:2–3.
A inveja aqui possui um conteúdo moral. Asaf não está apenas desejando uma casa melhor. Ele vê pessoas que desprezam a justiça vivendo com segurança e começa a perguntar se sua própria retidão faz sentido. Por que continuar fiel ao bem quando a impressão é de que quem o abandona leva vantagem? Essa é uma tentação que pode aparecer numa situação de trabalho, num conflito familiar ou diante de um sistema político corrupto. A injustiça sofrida começa a ameaçar a disposição de agir corretamente.
É preciso observar o efeito dessa dúvida. Quando acreditamos que a desonestidade é sempre mais vantajosa, podemos começar a tratá-la como uma necessidade. Primeiro deixamos de admirar o bem; depois passamos a considerá-lo ingenuidade. Nesse ponto, a prosperidade do perverso já causou um dano que ultrapassa suas vítimas diretas: tornou-se um argumento contra a vida moral. O salmo acompanha justamente o esforço de não deixar que essa aparência determine o significado de toda a existência.
Asaf encontra uma mudança de perspectiva quando passa a considerar o fim do caminho daqueles que admirava. O olhar deixa de ficar preso à fotografia de um momento e começa a perguntar pela trajetória inteira. Isso não significa que toda pessoa perversa será publicamente desmascarada amanhã. Significa que um estado passageiro de conforto não é suficiente para demonstrar que uma vida alcançou seu bem. Podemos ver a conta bancária de alguém sem conhecer aquilo em que essa pessoa está se tornando.
Imagine uma pessoa que consegue tudo o que deseja pela intimidação. Exteriormente, ela vence. Mas, para conservar essa vitória, torna-se cada vez mais incapaz de ouvir, confiar e reconhecer a dignidade dos outros. O conforto aumentou; sua capacidade de viver de maneira humana diminuiu. Esse exemplo ainda não explica a justiça divina. Ele apenas nos ajuda a abandonar uma confusão inicial: possuir coisas boas e tornar-se uma pessoa melhor são acontecimentos diferentes, embora às vezes caminhem juntos.
O judaísmo afirma que os atos humanos possuem relevância diante de Deus. Na apresentação dos princípios de fé, Maimônides, conhecido como Rambam, inclui a retribuição pelas ações entre os fundamentos de sua exposição. Deus conhece o que fazemos, e nossa conduta não termina numa sucessão de acontecimentos sem significado. O ser humano responde por suas escolhas. Esse ensinamento está ligado ao livre-arbítrio: se somos chamados a agir de determinada maneira, nossas decisões precisam ter um peso real.
Mas reconhecer esse princípio não resolve automaticamente todas as perguntas. Ainda precisamos perguntar quando a retribuição ocorre, que forma ela assume e como se relaciona com a vida coletiva. Uma guerra pode atingir uma cidade inteira, formada por pessoas muito diferentes. Uma pessoa pode colher consequências de decisões tomadas por outra. Também existem doenças, acidentes e limitações próprias da condição humana. Colocar tudo isso sob uma única fórmula, como se cada acontecimento revelasse diretamente o mérito de quem o vive, impede que o assunto seja compreendido.
O profeta Jeremias também apresenta a pergunta diante de Deus:
“Justo és Tu, Eterno, quando apresento minha causa diante de Ti; contudo, falarei contigo sobre justiça: por que prospera o caminho dos perversos? Por que vivem tranquilos todos os que agem com traição?” — Jeremias 12:1.
Jeremias parte da justiça de Deus e, ao mesmo tempo, expõe o que não consegue compreender. A confiança não o obriga a fingir que o problema desapareceu. Podemos reconhecer um fundamento e ainda precisar de um estudo profundo de suas consequências. É assim que iremos trabalhar: levando a pergunta a sério, conhecendo as fontes e distinguindo os diferentes aspectos da existência humana. Jeremias 12.
Uma distinção será especialmente importante: a diferença entre as condições que permitem viver e a finalidade para a qual vivemos. Saúde, sustento e segurança são bens preciosos. Uma sociedade justa deve procurar assegurá-los. Entretanto, ter saúde não determina o que faremos com ela; possuir tempo não determina como o utilizaremos. Podemos receber condições excelentes e desperdiçá-las. Também podemos, dentro de condições muito difíceis, realizar ações de uma grandeza que o olhar exterior não consegue medir.
Quando a Torá fala de chuva, colheita e paz, precisamos compreender a relação dessas promessas com a missão de Israel e com o serviço a Deus. Depois, quando os sábios falam de Olam Habá, o Mundo Vindouro, precisamos investigar que espécie de bem está sendo descrita. Talvez nossa dificuldade inicial seja justamente esperar que um bem definitivo apareça na forma de uma vantagem momentânea. Para examinar essa possibilidade, teremos de estudar a alma, o aperfeiçoamento humano e a continuidade da vida.
Também teremos de distinguir assuntos que frequentemente aparecem misturados. A era messiânica trata de uma transformação da história e da vida do povo. A ressurreição trata do retorno da vida aos mortos. O mundo das almas trata da existência depois da separação entre corpo e alma. O Mundo Vindouro recebe explicações diferentes entre os grandes autores. Ao compreender essas diferenças, veremos por que eles não apresentam todos a mesma resposta à pergunta sobre o momento e a forma da recompensa.
A justiça divina não pode ser usada para diminuir a responsabilidade humana diante da injustiça. Se alguém é explorado, devemos enfrentar a exploração. Se alguém passa fome, devemos procurar alimentá-lo. A esperança de uma retribuição futura não substitui a obrigação presente de agir. Pelo contrário: se o bem possui valor diante de Deus, aliviar o sofrimento e corrigir uma injustiça também possuem valor. A pergunta sobre o destino final do ser humano deve ampliar nossa responsabilidade, e não adiar o cuidado com quem precisa dele.
Essa diferença aparece quando uma pessoa pede ajuda. Ela não precisa primeiro receber uma teoria completa sobre o sofrimento. Precisa ser ouvida, amparada e tratada com respeito. Podemos estudar as explicações dos sábios sem imaginar que elas nos tornam capazes de conhecer os motivos ocultos da vida alheia. O conhecimento começa também pelo reconhecimento de seus limites. Isso nos permite conservar a seriedade da justiça e a delicadeza necessária diante de uma dor concreta.
Ao final do Salmo 73, Asaf já não mede o bem apenas pela segurança que invejava. Ele coloca a proximidade de Deus no centro de sua vida. Essa mudança não apaga as dificuldades que descreveu; modifica o critério com que procura compreender a existência. O que merece ser desejado não se reduz àquilo que pode ser possuído. Existe um bem relacionado ao que a pessoa conhece, ama e se torna. É essa possibilidade que abre o caminho para o estudo do Mundo Vindouro. Salmo 73.
Começamos, portanto, com uma pergunta que precisa de desenvolvimento, e não de uma resposta apressada. Nas próximas etapas, vamos conhecer as promessas da Torá, compreender seu caráter coletivo e estudar o lugar da recompensa espiritual. A justiça que buscamos entender envolve a pessoa inteira, suas escolhas e um horizonte de existência maior do que aquilo que podemos observar num único momento. Quanto mais claramente distinguirmos esses assuntos, menos dependeremos de imagens confusas para falar da vida, da morte e da esperança.
Fontes e leitura
- Salmo 73; Jeremias 12:1.
- Rambam, Introdução ao capítulo Chelek, princípio 11.
- Sefer HaIkkarim, tratado I, exposição dos fundamentos; tratado IV, capítulo 29.
- Rambam, Hilchot Teshuvá 5 e 9, desenvolvidos nos artigos seguintes.