Quando ouvimos a palavra profecia, geralmente pensamos em alguém anunciando o futuro. Uma guerra vai acontecer, um governante vai cair, uma pessoa vai nascer. Essa associação é tão comum que podemos passar anos lendo os profetas sem fazer uma pergunta anterior: o que torna uma mensagem profética? Afinal, muitas pessoas tentam prever acontecimentos. Um agricultor prevê uma colheita, um médico prevê a evolução de uma doença e um analista tenta prever uma crise. Nenhum deles se torna profeta apenas por acertar.
Para compreender a profecia, precisamos começar pela origem do conhecimento. Normalmente aprendemos a partir daquilo que observamos. Vemos uma situação, lembramos de outras semelhantes, comparamos informações e chegamos a uma conclusão. Se uma criança toca uma panela quente, aprende algo pela experiência. Se depois alguém lhe explica que o metal transmite calor, ela acrescenta uma compreensão ao que sentiu. Na vida inteira fazemos isso: reunimos experiências e procuramos entender o que elas significam.
O raciocínio pode chegar muito longe. Podemos compreender coisas que nunca vimos diretamente. Observando seus efeitos, elaboramos uma explicação, verificamos se ela é coerente e corrigimos o que estiver errado. Esse trabalho exige esforço, paciência e disposição para abandonar uma ideia que parecia boa. Ainda assim, o ponto de partida continua sendo nossa capacidade humana de observar e pensar. Somos nós que procuramos alcançar um conhecimento.
A profecia apresenta outro movimento. Deus comunica algo ao ser humano. A pessoa recebe uma revelação que não foi produzida apenas por suas próprias conclusões. Por isso, Maimônides começa o estudo da profecia com esta afirmação:
“Um dos fundamentos da religião é saber que Deus faz os seres humanos profetizarem.” — Fundamentos da Torá 7:1.
A frase é curta, mas estabelece algo decisivo: Deus não é apenas o assunto sobre o qual o ser humano pensa. Ele também pode revelar-se ao ser humano. Podemos estudar o mundo, refletir sobre sua existência e procurar conhecer seu Criador. Na profecia, porém, acontece uma comunicação que parte de Deus. O profeta continua sendo humano, mas recebe um conhecimento por uma via diferente daquela pela qual aprendemos habitualmente. Texto de Maimônides.
Isso não significa que o profeta dispensa a inteligência. Ao contrário: veremos que sabedoria, entendimento e preparação são fundamentais. Imagine uma pessoa ouvindo uma explicação muito profunda sobre um assunto que desconhece. Mesmo quando a informação lhe chega de fora, sua capacidade de compreender continua sendo necessária. A profecia não é igual a uma aula, mas esse exemplo ajuda a perceber por que receber conhecimento e estar preparado para recebê-lo são questões relacionadas.
Em O Caminho de Deus, o Ramchal — Rabi Moshe Chaim Luzzatto — explica que a profecia envolve uma aproximação de Deus e uma percepção de Sua revelação muito superiores ao entendimento habitual. Vamos entender essa aproximação. Quando dizemos que duas pessoas se aproximaram, podemos falar de uma distância física: antes estavam longe, agora estão perto. Mas também podemos dizer que se aproximaram porque passaram a compreender melhor uma à outra. No segundo caso, ninguém precisou mudar de lugar.
Deus não possui um corpo, não ocupa uma cadeira e não fica esperando o profeta chegar a determinado endereço. Aproximar-se de Deus significa alcançar um conhecimento e uma relação mais elevados com Ele. O profeta percebe a revelação divina de uma maneira que não corresponde ao simples pensamento de quem está tentando imaginar como Deus seria. A experiência lhe apresenta uma realidade; ele não está apenas fabricando uma imagem que o emociona. Essa distinção orienta a explicação do Ramchal em O Caminho de Deus, parte III, capítulo 3. Fonte.
Agora podemos voltar à questão do futuro. Uma revelação pode ensinar algo sobre um acontecimento que ainda não ocorreu. Mas também pode trazer uma compreensão sobre Deus, uma orientação para a vida ou uma missão. Se reduzirmos a profecia à previsão, perderemos justamente aquilo que organiza grande parte das mensagens bíblicas: a responsabilidade que o conhecimento recebido coloca sobre a pessoa e sobre a comunidade.
Vejamos o chamado de Moisés. O povo de Israel vivia sob a escravidão no Egito. Moisés, que havia saído de lá, recebe uma revelação na qual Deus diz:
“Certamente vi a aflição do Meu povo que está no Egito e ouvi seu clamor por causa dos seus opressores, pois conheço suas dores. Desci para livrá-lo da mão dos egípcios e fazê-lo subir daquela terra para uma terra boa e ampla [...]. Agora, vem: Eu te enviarei ao Faraó, e tirarás do Egito o Meu povo, os filhos de Israel.” — Êxodo 3:7–10, trechos.
O que Moisés recebe aqui? Há uma informação sobre a ação divina, mas também uma tarefa: ir ao Faraó e conduzir a saída do povo. A mensagem exige que ele abandone sua situação atual e enfrente um problema concreto. Moisés não foi chamado para satisfazer a curiosidade de quem gostaria de saber uma novidade sobre os próximos anos. Foi enviado para participar da libertação de pessoas que sofriam. A revelação se transforma em missão. Êxodo 3.
É importante perceber a sequência. Primeiro existe a revelação. Depois precisamos perguntar o que ela contém e a quem se destina. Maimônides explica que uma profecia pode ser recebida em benefício do próprio profeta, para ampliar seu entendimento. Também pode trazer um envio a uma cidade, a um reino ou a um povo, para orientar suas ações e afastá-lo do mal. Portanto, nem toda pessoa que recebe uma revelação recebe a mesma tarefa pública. A experiência profética e a missão de falar aos outros estão ligadas, mas não são a mesma coisa.
Podemos compreender essa diferença com um exemplo simples. Uma pessoa recebe uma informação que transforma seu entendimento. Isso é uma coisa. Ser encarregada de ensinar, orientar ou dirigir outras pessoas a partir dessa informação é outra. Na profecia, o envio precisa existir. O profeta não pode inventar por conta própria que Deus o autorizou a ordenar algo aos demais. Receber uma mensagem não lhe dá liberdade para acrescentar o que desejar, escolher uma missão que não recebeu ou atribuir seus interesses pessoais à vontade divina.
Também precisamos distinguir a experiência do profeta da experiência de quem o escuta. O verdadeiro profeta reconhece a revelação que recebeu. Mas nós, que não participamos daquela experiência, não podemos entrar em sua consciência para verificar o que ocorreu. Para o profeta, uma coisa foi conhecida. Para o ouvinte, existe inicialmente uma afirmação feita por alguém. Como saber se essa pessoa está dizendo a verdade? A Torá estabelece critérios para essa pergunta, e vamos estudá-los. Por enquanto, basta perceber que a certeza do mensageiro e o reconhecimento público de sua autoridade exigem explicações diferentes.
Essa distinção nos protege de um erro frequente. Alguém pode falar com grande convicção, chorar ao contar uma experiência e demonstrar completa segurança sobre o que diz. Isso nos informa como a pessoa está vivendo sua afirmação. Ainda não resolve de onde a mensagem veio. A intensidade de uma experiência não pode ser tomada automaticamente como confirmação de sua origem. Ao estudar a profecia, vamos aprender a respeitar essa diferença e a examinar as perguntas na ordem certa.
Podemos, então, formular nossa primeira compreensão: profecia é uma revelação divina recebida pelo ser humano, por meio da qual ele alcança conhecimento e, em certos casos, recebe uma missão. Prever acontecimentos pode fazer parte dela. Orientar a conduta, advertir contra a injustiça e conduzir o povo também podem. O assunto é muito maior do que anunciar datas ou apresentar acontecimentos surpreendentes.
Com essa base, a leitura dos profetas começa a mudar. Ao encontrar uma mensagem, perguntaremos: o que Deus está ensinando? A quem ela se dirige? O que precisa ser compreendido ou transformado? Quem a recebeu foi enviado a transmiti-la? Essas perguntas nos aproximam do sentido da profecia e nos permitem acompanhar sua finalidade. No próximo artigo, vamos desenvolver justamente isso: para que Deus envia profetas e o que sua presença exige de um povo.
Referências principais: Maimônides, Fundamentos da Torá 7:1 e 7:7; Ramchal, O Caminho de Deus III:3; Êxodo 3:7–10. Traduções dos textos clássicos em português preparadas para esta série.