O propósito do casamento na Torá e a responsabilidade de construir uma vida compartilhada
“E você, quando vai casar?” A pergunta aparece no almoço de família, na saída da sinagoga ou no encontro com alguém que não vemos há muito tempo. Às vezes vem acompanhada de carinho e de uma oferta concreta de ajuda. Em outras ocasiões, soa como se a vida de quem ainda está solteiro permanecesse à espera de começar.
O judaísmo atribui grande importância ao casamento. Mas como explicar esse valor sem transformar o estado civil em medida do valor de uma pessoa? E o que, afinal, desejamos construir quando dizemos que queremos casar?
Para responder, precisamos voltar a uma passagem da Torá que muitos conhecem de memória — e que merece ser lida com mais atenção.
Uma companhia que corresponde ao ser humano
Ao longo do primeiro capítulo de Bereshit, a criação é repetidamente descrita como boa. Depois da criação humana, o texto afirma que tudo era tov me'od, muito bom. No segundo capítulo, porém, encontramos:
לֹא־טוֹב הֱיוֹת הָאָדָם לְבַדּוֹ
Lo tov heyot haAdam levado. “Não é bom que o homem esteja só.” (Bereshit 2:18) A declaração aparece antes da expulsão do Gan Eden, o jardim do Éden. Adam ainda não enfrenta as dificuldades da existência humana descritas nos capítulos posteriores. Mesmo assim, a narrativa apresenta sua condição como incompleta em determinado aspecto. Deus anuncia que fará para ele um Ezer Kenegdo, uma ajuda correspondente.
O foco da narrativa é a formação da primeira parceria humana. Reconhecer esse ideal não exige concluir que a vida de uma pessoa solteira seja desprovida de valor. Depois do anúncio divino, a Torá descreve os animais sendo apresentados a Adam. Ele lhes atribui nomes. Entretanto, a narrativa conclui que não foi encontrada entre eles uma ajuda correspondente. O episódio destaca a diferença entre a existência de outras criaturas e a presença de alguém capaz de estabelecer uma relação especificamente humana.
Adam não está simplesmente diante de um mundo vazio. O que falta é uma companhia de outra natureza. A criação da mulher responde a essa situação. O texto culmina em Bereshit 2:24:
וְדָבַק בְּאִשְׁתּוֹ וְהָיוּ לְבָשָׂר אֶחָד
“Unir-se-á à sua esposa, e serão uma só carne.” A passagem apresenta a formação de uma nova unidade familiar. [1]
O que Rashi acrescenta à pergunta
Rashi apresenta uma interpretação surpreendente de Bereshit 2:18. Em sua leitura midráshica, que retoma uma interpretação dos sábios, não seria adequado que Adam permanecesse como único ser de sua espécie no mundo inferior, pois poderia surgir a impressão de uma segunda autoridade comparável à singularidade divina. Seu comentário chama a atenção para a singularidade de Deus e para a diferença entre o Criador e o ser humano. Assim, oferece uma leitura do versículo que vai além da necessidade emocional de companhia.
A interpretação mostra como o versículo pode ser compreendido em uma dimensão muito diferente daquela frequentemente apresentada em discursos modernos sobre relacionamento. Isso não elimina outras possibilidades de aplicação. Mas exige que distingamos o ensinamento do comentarista das reflexões contemporâneas que desenvolvemos a partir dele. [2]
Uma só carne e a formação de uma nova família
O Ramban, ao comentar Bereshit 2:24, examina o significado da união descrita como “uma só carne”. Rashi relaciona a expressão ao filho formado pelos dois. O Ramban questiona se essa explicação basta para caracterizar a união humana e destaca o vínculo duradouro entre marido e mulher. São leituras diferentes, não duas maneiras idênticas de dizer a mesma coisa. [3] O relacionamento humano não se reduz ao encontro reprodutivo.
Existe uma proximidade duradoura que reorganiza a vida familiar. Isso também ajuda a compreender a expressão anterior: deixar pai e mãe para unir-se ao cônjuge. A formação de uma nova família não exige abandonar a honra devida aos pais. Na aplicação à vida familiar, há uma reorganização das responsabilidades e dos vínculos. Os detalhes de como conciliar a honra aos pais com os deveres conjugais exigem estudo próprio.
Filhos e vida conjugal
A importância religiosa do casamento também está relacionada ao mandamento de Pru Urvu, frutificar e multiplicar. Em Bereshit 1:28, Deus abençoa o ser humano e estabelece esse princípio, posteriormente desenvolvido como mitzvá pela tradição haláchica. O Rambam, em Hilchot Ishut 15:1–2, distingue o mandamento de reprodução das obrigações conjugais e codifica seus destinatários. Mitzvá significa mandamento; Halachá é o sistema jurídico e normativo da tradição judaica. [4]
Ele estabelece que a obrigação formal de Pru Urvu recai sobre o homem, na codificação do Rambam, e discute a idade e as circunstâncias relacionadas ao casamento. Isso é importante por dois motivos. Primeiro, demonstra que a formação da família possui um significado religioso que ultrapassa a preferência individual. Segundo, lembra que obrigações haláchicas possuem destinatários e condições específicos. Não é adequado transformar automaticamente cada norma dirigida a um homem judeu em obrigação jurídica idêntica para todas as pessoas.
O vínculo conjugal tem responsabilidades próprias
A própria literatura judaica discute companhia, amor, honra, sustento e responsabilidades conjugais. A Oná, obrigação relativa à intimidade conjugal, possui lugar próprio nesse sistema e não se confunde simplesmente com o mandamento de reprodução. O primeiro parágrafo do capítulo já coloca essas obrigações em relação, sem torná-las sinônimas. [4] Portanto, embora a continuidade das gerações constitua um valor essencial, a vida conjugal não pode ser reduzida à finalidade reprodutiva.
Casais que enfrentam infertilidade continuam a viver uma relação humana e religiosa que não pode ser resumida à ausência de filhos. As questões haláchicas concretas dessa situação, porém, exigem orientação individual; reconhecer o valor do vínculo não resolve antecipadamente todas elas.
Amar e honrar fazem parte do propósito
Em Yevamot 62b, os sábios ensinam a importância de amar a esposa como a si mesmo e honrá-la mais do que a si mesmo. A passagem relaciona essas atitudes à paz doméstica. O ensinamento é formulado como orientação ao marido, dentro da linguagem e das responsabilidades matrimoniais da fonte. [5] É significativo que o Talmud não se limite a recomendar que uma pessoa encontre alguém para casar.
Também estabelece exigências sobre a maneira de tratar o cônjuge. Isso modifica nossa compreensão do propósito matrimonial. Não se trata apenas de alcançar determinado estado civil. Existe também a responsabilidade de construir uma convivência digna. Um casamento formalmente existente não realiza automaticamente o ideal de Shalom Bait. O comportamento dos cônjuges importa.
A vida depois da cerimônia
Desejar casar e estar preparado para a vida conjugal são questões relacionadas, mas diferentes. A cerimônia estabelece um compromisso; a convivência dará forma a ele em decisões sobre dinheiro, trabalho, família e prática religiosa. Conhecer as expectativas do outro faz parte dessa preparação.
Em um caso fictício, uma pessoa imagina uma casa sempre aberta a convidados; a outra espera que o fim de semana seja reservado ao descanso e à intimidade do casal. As duas podem valorizar família e generosidade. Ainda assim, terão de conversar sobre horários, limites e quem fará os preparativos. A concordância em grandes palavras não substitui o conhecimento da vida que o outro deseja levar.
Essa conversa não exige que todos os detalhes do futuro estejam resolvidos. Ela ajuda a perceber se existe disposição para considerar necessidades diferentes. O conhecimento do caráter e da compatibilidade será aprofundado nos próximos artigos; aqui, o primeiro passo é reconhecer que estamos escolhendo uma vida compartilhada, com consequências concretas.
O valor de quem ainda não se casou
Aqui precisamos retornar à pergunta inicial. A tradição judaica atribui ao casamento valor religioso e comunitário. Mas isso não autoriza desvalorizar indivíduos que ainda não se casaram, pessoas viúvas, divorciadas ou que enfrentam circunstâncias difíceis. A dignidade humana não pode ser reduzida ao estado civil. Além disso, não devemos apresentar dificuldades matrimoniais como prova de falha espiritual. Uma pessoa pode procurar um cônjuge com seriedade e ainda não encontrar uma relação apropriada.
A experiência não oferece acesso às razões da providência divina. Também não é legítimo pressionar alguém a aceitar uma união prejudicial apenas para cumprir uma expectativa social. Considere outro caso fictício: alguém sofre intensamente com a pressão de sua comunidade. Cada evento familiar traz perguntas sobre casamento. A pessoa começa a considerar uma proposta mesmo percebendo diferenças fundamentais de valores. Pensa: “Talvez seja melhor casar do que continuar enfrentando essa situação.”
Mas a pressão social não constitui, por si só, uma razão suficiente para assumir um compromisso matrimonial. O casamento envolve direitos, deveres e consequências duradouras. É necessário considerar o caráter, a compatibilidade e a vontade dos envolvidos. A valorização religiosa do casamento não deve eliminar o discernimento. Para familiares e amigos, valorizar o casamento pode significar oferecer uma apresentação com discrição, ouvir o que a pessoa procura e aceitar uma recusa sem constrangê-la. Ajudar exige interesse pela experiência concreta de quem deseja casar. Perguntas públicas e comentários sobre suposta exigência excessiva podem tornar a procura mais pesada, sem produzir uma possibilidade real de encontro.
O que desejo construir
Companhia, filhos, uma família religiosa e estabilidade podem fazer parte do desejo de casar. A preparação também pede atenção à contribuição que pretendemos oferecer. Como quero tratar meu cônjuge quando estivermos cansados ou discordando? Que responsabilidades estou disposto a assumir? Quais expectativas preciso conversar, em vez de presumir que serão compartilhadas?
Como reflexão individual, escreva sobre três pontos:
- O que desejo encontrar em uma vida conjugal e por que isso importa para mim.
- O que posso oferecer e quais atitudes ainda preciso desenvolver.
- O que espero compartilhar com alguém e o que preciso cuidar em minha própria vida.
O objetivo é compreender melhor o compromisso considerado, sem produzir uma resposta perfeita. A preparação cresce quando conseguimos reconhecer tanto nossos valores quanto nossas limitações.
Uma pergunta que merece cuidado
Na próxima vez que perguntarmos a alguém quando vai casar, vale lembrar o tamanho da decisão que estamos mencionando. Há uma pessoa real diante de nós, com sua história, seus desejos e circunstâncias que talvez desconheçamos. O casamento ocupa um lugar importante na tradição judaica porque envolve companhia, formação de família e responsabilidades que alcançam o modo de tratar o outro. Esse projeto começa antes da cerimônia, na disposição de conhecer alguém e assumir o que a vida em comum pedirá de nós.
A pergunta “por que casar?” ganha profundidade quando vem acompanhada de outra: “que tipo de vida estou disposto a ajudar a construir?”
Fontes e referências
[1] Bereshit 2:18–24, criação da parceria humana. Texto hebraico e edição com tradução e Rashi: Genesis 2.
[2] Rashi sobre Bereshit 2:18, comentário a “não é bom”. Leitura midráshica sobre a singularidade divina, na mesma edição.
[3] Rashi sobre Bereshit 2:24 e Ramban sobre Bereshit 2:24, especialmente o comentário a “uma só carne”. Rashi e texto bíblico; Ramban, texto hebraico e tradução.
[4] Bereshit 1:28; Rambam, Mishnê Torá, Hilchot Ishut 15:1–2. Versículo; Ishut 15, hebraico e tradução de Eliyahu Touger.
[5] Talmud Bavli, Yevamot 62b, ensinamento sobre amar e honrar a esposa. Texto e tradução, ao final da página.
As traduções portuguesas dos trechos citados foram preparadas para esta edição. As aplicações atuais e os casos fictícios têm finalidade educativa. As normas matrimoniais judaicas aqui estudadas têm destinatários e condições específicos; não se presume sua aplicação jurídica integral a Bnei Noach e não judeus.