Essa mudança explica a formação de uma das maiores populações judaicas do mundo moderno. Até então, o Estado russo havia imposto fortes barreiras à presença judaica em seu interior. Ao conquistar novos territórios, passou a governar uma população para a qual precisaria formular regras de residência, trabalho e organização comunitária.2
Um império não era um país de fronteiras atuais
Vilna, Minsk e Odessa pertenciam ao mesmo império, embora tenham histórias locais distintas e estejam em países diferentes no mapa contemporâneo. Por isso, “judeu do Império Russo” não é sinônimo de uma pessoa nascida na Rússia atual. Essa distinção importa quando encontramos um antepassado chamado de russo em um documento de imigração.
No censo imperial de 1897, foram registrados cerca de cinco milhões de judeus. A população havia crescido muito durante o século XIX, enquanto aumentavam a urbanização e as dificuldades para encontrar sustento em certas regiões. Odessa, por exemplo, tornou-se um grande centro judaico dentro de uma área que o império havia aberto à expansão econômica.2
Integrar, restringir e controlar
As autoridades não seguiram uma política única durante todo esse período. Procuraram incorporar judeus a categorias administrativas, como as de comerciantes e habitantes urbanos, ao mesmo tempo que restringiam suas possibilidades de residência. Regras diferentes, exceções e mudanças de orientação faziam parte do cotidiano.2
A Zona de Residência, formada a partir do fim do século XVIII, seria a expressão mais conhecida dessas limitações. Seu desenho se alterou com o tempo. Mesmo dentro dela havia localidades fechadas aos judeus; fora dela, determinadas categorias conseguiam autorização para morar. Além disso, comunidades antigas da Ásia Central e do Cáucaso tinham situações próprias, que não se resumiam às regras dessa zona.3
Antes de acompanhar pogroms, revoluções e emigrações, precisamos enxergar essa sociedade em funcionamento. Havia famílias trabalhando, estudiosos ensinando e comunidades mantendo seus serviços. A mudança de soberania colocou tudo isso sob um novo poder. A questão que atravessaria o século seguinte seria muito concreta: quanto desse mundo conseguiria continuar existindo, e em quais condições, sob a autoridade dos czares?